Cinema 101 – A regra dos 180º

No nosso primeiro post da série “Cinema 101” falamos um pouco sobre o Master Shot e agora chegou a hora de falar sobre a famosa regra dos 180º que é aplicada tanto no cinema narrativo, quanto em transmissões de broadcast.

Para isso contaremos com a ajuda do vídeo feito por Matt Workman, onde através de um software 3D foi possível ilustrar de maneira muito pedagógica a lógica da utilização da regra em situações dentro da narrativa clássica.

Mas o que é esta regra? 

A “regra” (explicaremos mais à frente o motivo das aspas) dos 180º parte do pressuposto que é necessário criar um eixo imaginário no campo de ação e manter seu ponto de visão dentro deste espaço e qual o motivo para isto?

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Fonte: 180 degree rule applied – Cinematography Database – Youtube

O cinema narrativo de forma geral não quer seu espectadores confusos e desconectados da história, o mesmo ocorre com transmissões broadcast, principalmente em esportes, eles não querem que você esteja torcendo para o time que ataca para a esquerda e, de repente, este time esteja atacando para o “outro lado”.

A figura acima ajuda a ilustrar muito bem o que seria este eixo e onde, por exemplo, estariam posicionadas as câmeras para um diálogo “over the shoulder”.

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Fonte: 180 degree rule applied – Cinematography Database – Youtube

Caso uma câmera estivesse posicionada fora do eixo criado, ela iria gerar confusão ao espectador assim que o corte fosse de uma personagem à outra, principalmente se não houver nenhum plano geral que situe a ação antes do corte para o diálogo.

O mesmo ocorre em transmissões, por exemplo, às câmeras obedecem sempre um eixo do campo e não há cortes para o “outro lado”, pois isso confunde a pessoa assistindo por algum tempo.

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Fonte: 180 degree rule applied – Cinematography Database – Youtube

Um ótimo exemplo disso seria assistir aos melhores momentos de um jogo feito do lado “oficial” do campo e então assistir aos mesmos lances feitos por alguém na arquibancada do lado oposto. No exemplo acima uma das personagens fica mais à esquerda do quadro, enquanto seu olhar é direcionado para o lado oposto.

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Fonte: 180 degree rule applied – Cinematography Database – Youtube

Já a segunda personagem fica mais à direita e com o olhar voltado para a esquerda, isso gera a continuidade visual no plano, sem esta continuidade o corte para uma narrativa clássica fica muito prejudicado.

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Fonte: 180 degree rule applied – Cinematography Database – Youtube

Caso a conversa seja entre a mulher ao centro e a mais à esquerda, basta “recriar” o plano imaginário e obedecê-lo.

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Fonte: 180 degree rule applied – Cinematography Database – Youtube

Agora a personagem à esquerda continua na mesma disposição espacial, mas olhando para a pessoa ao centro da mesa.

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Fonte: 180 degree rule applied – Cinematography Database – Youtube

Já a pessoa ao centro obedece a continuidade visual definida e olha para onde esperaríamos seu olhar no “mundo real’.

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Fonte: 180 degree rule applied – Cinematography Database – Youtube

Também é possível gravar o plano com as três pessoas à mesa, o eixo ainda continua simples para ser visualizado. No exemplo acima foram inseridos os cinco posicionamentos de câmera para executar as conversas que foram citadas anteriormente.

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Fonte: 180 degree rule applied – Cinematography Database – Youtube

Geralmente estes planos começam em um geral e a razão para isso é que o plano geral situa toda a espacialidade para quem está assistindo, dessa forma o espectador se familiariza com o ambiente de maneira sutil, enquanto iniciamos a cena.

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Fonte: 180 degree rule applied – Cinematography Database – Youtube

Depois disso não importa qual a sequência de cortes entre as personagens, respeitando os 180º e mantendo o eixo, o espectador sempre saberá de maneira inconsciente onde cada uma está.

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Fonte: 180 degree rule applied – Cinematography Database – Youtube

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Fonte: 180 degree rule applied – Cinematography Database – Youtube

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Fonte: 180 degree rule applied – Cinematography Database – Youtube

Durante a cena também é possível sempre retorna ao plano geral ou a algum plano conjunto, caso o editor ache que o posicionamento esteja ficando muito confuso para quem assiste.

Quando seguir as regras

Assim como no primeiro “Cinema 101”, vamos deixar claro que estas regras não são imutáveis e muito menos impossíveis de serem quebradas, mas isso não muda uma das verdades mais repetidas no cinema: é preciso conhecê-las para que você possa quebrá-las.

De forma geral a “responsabilidade” por manter a continuidade visual dos 180º acaba caindo sobre diretor e diretor de fotografia, mas isso não exclui momentos onde até mesmo eles ficarão confusos se o espectador receberá a mensagem correta e o editor também pode participar da discussão em momentos muito complexos.

Assim como não aplicar a regra é uma escolha totalmente possível e viável de acordo com a necessidade narrativa da cena, o que Matt fez neste curto tutorial foi um passo-a-passo de como funciona esta proposição e o motivo para aplicá-la, cabe a você assimilá-la para que possa dizer sim ou não à regra de acordo com suas intenções.

Cinemasters 2.0

Matt Workman é mais um dos palestrantes do Cinemasters 2.0, o evento será exibido gratuitamente entre os dias 08 e 09 de dezembro e nele Matt falará exatamente sobre movimentos de câmera que fazem a diferença e para isso utilizará uma técnica quem vem crescendo muito entre diretores de fotografia, a pré-visualização de imagens 3D.

Inscreva-se no site: cinemasters.com.br e não perca nenhuma das nove palestras com os diretores!

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Graduado em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos, já passou por diversos ramos da comunicação e atuou no Brasil e Canadá. Atualmente trabalha em São Paulo onde executa as funções de filmmaker e editor.

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