Como Funciona a Direção de Atores

Dirigir atores é uma tarefa no mínimo complexa e o número de abordagens possíveis é quase incontável. O diretor é a pessoa que terá o contato mais direto com os atores e por isso cada um acaba agindo de forma única, as variáveis são muitas e dependem da história, do próprio ator escolhido para o papel e do estilo do diretor. Mas nada melhor que ouvir a voz da experiência e descobrir como alguns grandes diretores encaram essa tarefa.

David Cronenberg

Para David Cronenberg boa parte do processo está na conversa e construção do personagem, caso você tenha um bom ator e consiga passar o que quer dele, poderá deixá-lo tranquilo para fazer seu trabalho.

 

Morgan Freeman

Morgan Freeman defende uma abordagem mais direta e minimalista dos diretores, dando ênfase à seleção do elenco, uma vez selecionado um bom elenco, o resto é só o trabalho do ator.

Conversando Sobre Atores

Agora que tal reunir algum dos principais diretores de Hollywood para conversarem sobre como escolhem e dirigem atores? No próximo vídeo Tom Hooper (O discurso do rei, Os miseráveis, A garota dinamarquesa), Ang Lee (As aventures de Pi, O segredo de Brokeback Mountain), David O. Russel (O lado bom da vida), Ben Affleck (Argo), Sacha Gervasi (Hitchcock) e Kathryn Bigelow (A hora mais escura) discutem um pouco sobre sua abordagem ao dirigir atores e o que acham essencial na escolha de um bom elenco.

Honestidade sem Nonsense 

De maneira geral ser honesto com seus atores e manter um canal de comunicação direto com eles é essencial. David O. Russel cita que chega a orientar que eles não atuem, isso no sentido de não tentarem trazer uma interpretação exagerada para a tela, assim como Ben Affleck (que também é ator) cita que muitas vezes diz não esperar nada do ator para a cena, apenas que ele vá lá e fique na cena. Com essa abordagem muitas vezes o ator consegue se livrar de “obrigações” na interpretação que ele tinha em mente, como tentar convencer o público que está preocupado com sua mãe ou algo do tipo. Pois por mais experiente e habilidoso que ele seja, caso seu foco esteja muito concentrado em passar alguma mensagem, ela acabará saindo de forma exarcebada.

Sutileza na Interpretação

Uma das primeiras coisas que você aprende na faculdade ou assistindo a grandes atores, é que o cinema pede uma interpretação sutil, delicada, quase imperceptível. Enquanto no teatro, de maneira geral, os atores tem uma abordagem corporal muitíssimo maior, expressões bem acentuadas e precisam colocar bem sua voz no ambiente, no cinema é exatamente o contrário. Atuar com apenas partes do seu corpo ou rosto em foco requer um arte mais minimalista e concentrada em detalhes.

A Dose Certa de Atuação

O ator tem sua marcação e todas limitações técnicas para cada cena e além disso em muitos casos será seu rosto que estará em uma tela com mais de três metros de altura, exagerar na atuação neste momento faz com que o público se afaste, como cita Affleck, . Se o ator se comporta de maneira exagerada ou forçada, a tendência é perder o espectador. Trabalhando com grandes atores muitas vezes a sutileza é tão grande que pequenos detalhes só são percebidos na tela grande, durante a gravação eles são quase imperceptíveis. Paradoxalmente quanto menos o ator se preocupa em atuar, melhor é sua performance na maioria dos casos.

Escolha de Elenco

É quase unanimidade que a escolha do elenco é uma etapa essencial no processo, como o próprio Morgan Freeman cita em seu vídeo, se você fez a escolha certa é só deixar o ator fazer o trabalho dele, você passará a dirigir o filme e não mais dirigir atores. Ainda em seu vídeo ele cita Clint Eastwood que apenas direciona a marcação dos atores na cena e deixa que eles tragam o que pensaram para o seu trabalho.

Isso não quer dizer que o diretor faz apenas a seleção do elenco e deixa o ator chegar a uma conclusão sobre quem é o personagem, pelo contrário, durante a seleção e todo o processo de produção as leituras de roteiro serão constantes entre o diretor e os principais atores, exatamente para que eles consigam juntos criar esta personalidade baseado na visão do primeiro. Caso todo esse processo seja bem executado a chance do diretor não precisar ficar dando direcionamentos específicos para o ator durante as cenas é muito grande.

Mas como “não atuar?

Voltamos novamente ao termo “não atuar”, quando as leituras são intensas, o ator é talentoso e engajado em seu papel, ele passa a tratar seu personagem como uma pessoa real, ela não mais interpreta alguém, agora ele é alguém.

Isso faz com que uma vez dentro do personagem ele consiga tomar decisões sobre aonde ir, como reagir, como se portar, de maneira institiva. Sua fisionomia muda, sua linguagem corporal e tom de voz também, feito isso ele não passa mais a interpretar e sim a viver aquele ser humano, o que quebra a barreira do “hum, tenho de mostrar que estou feliz ou triste”, ele apenas reage a situações como seu personagem reagiria, pois as expressões de alegria ou tristeza entre os seres humanos são as mais diversas, há pessoas que choram alegres e outras que riem tristes, e se ele se prender apenas aos termos, terá uma atuação superficial e recheada de clichês que se maximizam na tela grande.

O Ator Preocupado com a Narrativa

Por último Tom Hooper cita um processo muito interessante ocorrido entre ele e Russell Crowe na gravação de Os Miseráveis, Tom sentia que havia uma pequena abertura no musical que não mostrava ou denunciava o motivo que levou Javert a planejar o suicídio. Foi quando Russell teve a ideia de durante a cena da batalha tirar a medalha do seu casaco e colocá-la em um pequeno garoto morto, esse foi o início de sua queda.

Este é um ótimo exemplo da importância do construção do personagem entre diretor e ator, um ator que apenas chega para interpretar algo e ir embora ao final da diária não terá conhecimento e compromentimento com a história da mesma forma que um ator que participou de discussões ativas com o diretor sobre quem é aquela pessoa que tomará forma através dele, ensaios, conversas, tudo isso dá confiança ao ator para dar vida ao seu personagem e poder decidir por ele.

 Ator e Diretor

A relação entre atores e diretores carrega muita mística e realmente é um laço único no filme, conseguir ter acesso emocional ao seu ator e ter a possibilidade de falar com ele sobre qualquer ponto do filme ou mesmo da vida é algo que tornará essa conexão muito mais forte, abrindo assim novos horizontes para o personagem que está nascendo através dos dois.

E você? Já teve grandes decepções ou ótimas surpresas dirigindo atores? Como lida com essa relação? Conta pra gente nos comentários.

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Graduado em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos, já passou por diversos ramos da comunicação e atuou no Brasil e Canadá. Atualmente trabalha em São Paulo onde executa as funções de filmmaker e editor.

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