Lytro Cinema Camera, o começo de uma revolução?

Não! Este não é mais um daqueles títulos espalhafatosos só para chamar sua atenção. Na realidade o que a Lytro Cinema Camera promete é algo que realmente pode iniciar um transformação em todo o processo de produção e pós-produção de vídeos. Ainda acha que estamos exagerando? Dá uma olhada no que a câmera está prometendo (e cumprindo).

O que é a Lytro?

A Lytro foi fundada pelo aluno da Universidade de Stanford Ren Ng para comercializar a câmera plenóptica (a grosso modo uma câmera que permite ajuste de foco depois de tirada a fotografia) que ele desenvolveu enquanto aluno. Ela é definida como a primeira solução para Light Field no cinema, para entender a magnitude disso tudo é preciso entender o conceito de Light Field.

Light Field

O Light Field (que em livre tradução seria o equivalente a Campo Luminoso) é, falando em termos matemáticos, uma função vetorial que descreve a quantidade de raios de luz indo em cada direção, já esta direção é dada por uma função plenóptica e a magnitude dos raios pelo brilho. E acredite, este não é um conceito novo, em 1846 Michael Faraday propôs que os raios de luz deveriam ser interpretados como um campo e deu início a esta abordagem. Já o termo “light field” foi citado por Alexander Gurshein em 1936.

Toda a tecnologia por trás da câmera não é divulgada, mas a câmera plenóptica padrão contém várias microlentes (os números chegam a vários milhares) que ficam um pouco atrás da distância focal da lente maior. Este conjunto de informações que chega ao sensor é entregue a softwares capazes de comparar a informação de saída de uma das microlentes com outras próximas e assim definir a direção da luz, adicione a isso a amplitude e outros dados e torna-se possível recriar um espaço tridimensional.

Para que isso funcione a câmera captura todos os raios de luz na cena, obtendo assim uma gama muito grande de informação. Cada pixel possui propriedades de cor, direção e sua posição exata no espaço. A Lytro Cinema Camera em suas próprias palavras promete “desafiar a física tradicional da captura no set ao virtualizar decisões criativas de câmera”. Com isto algumas da opções tornam-se possíveis na pós, tal como o controle do foco, perspectiva, abertura e ângulo do obturador.

Profundidade de Tela

A profundidade de tela funciona como se houvesse um fundo verde atrás de qualquer objeto na cena ou em qualquer ponto do espaço. A ideia é compor primeiro plano com o fundo usando as informações de profundidade de tela e assim eliminar a montagem de enormes painéis verdes que precisam ser posicionados e iluminados da maneira correta.

Tracking Através do Campo Luminoso

Uma combinação de um sistema de escaneamento de alta resolução com as informações de campo luminoso, a Lytro Cinema é capaz de entregar informações precisas de tracking para facilitar o processo de integração e movimento da equipe de pós.

O Que Pode Mudar

Geralmente com o surgimento de uma nova tecnologia o leque de possibilidades começa razoavelmente pequeno e vai aumentando até explodir quando os consumidores ou profissionais colocam as mãos nela. No caso da Lytro já é possível prever mudanças que vão de uma escala pequena até todo o fluxo de trabalho de um filme.

A câmera está sendo desenvolvida para a produção de altíssimo nível com foco realmente no cinema de grande orçamento, portanto, a qualidade que ela promete entregar tem de ser muito boa e segura para que um supervisor de efeitos visuais confie entregar cenas onde seria necessário todo um aparato técnico para serem gravadas sem nada disso.

Agilidade a Menor Custo

Com esta segurança imagine todo o recorte de fundo verde de uma cena não ser mais necessário, não é preciso um estúdio enorme com fundo verde ou então estruturas grandes de fundo verde para a gravação da cena, mais que isso, em casos onde o recorte não fica satisfatório, imagine não serem mais necessárias horas ou dias de rotoscopia para recortar a cena e estes mesmos profissionais (geralmente muito qualificados) podendo trabalhar em outras tarefas menos maçantes.

O que os artistas de CGI fazem até hoje é tentar adequar uma imagem 2D ao seu ambiente natural que é o 3D. Para isso várias técnicas e etapas são aplicadas em conjunto com vários parâmetros como ângulo do obturador, quadros por segundo, lente utilizada e abertura, para que a imagem final seja uma mescla quase perfeita ao ideal. A Lytro captura vários dessas informações em conjunto com a imagem para que através de plugins nos principais softwares CGI o processo de pós-produção seja muito mais rápido e eficiente.

Capacidade e Processamento

A câmera possui um sensor muito grande com uma resolução de 755 megapixels, se não bastasse pode gravar a até 300qps. Para que tudo isso se torne capaz é necessário um processamento enorme, que fica bem além do que um ou dois computadores “normais” podem entregar. A solução da Lytro foi construir sua própria base de processamento física que é literalmente um grande servidor, mas a empresa já pensa no processamento em nuvem para facilitar todo o processo.

Legal, mas cadê a câmera em ação?

Muito melhor que apenas falar por horas sobre a câmera é vê-la em ação nas mãos de profissionais capacitados, por isso o primeiro curta produzido pela Lytro Cinema em associação com a The Virtual Reality Company será apresentado na NAB deste ano. Você pode conferir um behind the scenes da produção do curta que se chama “Life” a seguir:

Próximos Passos

O primeiro passo é ver como a câmera será inserida na indústria, apesar das especificações extremamente altas, ainda não há realmente algo claro e específico sobre o poder narrativo dela e mesmo com a possibilidade de alterar a ponto de foco na cena sabemos que diferentes lentes trabalham com diferentes compressões, possuem diferentes texturas entre vários outros detalhes sutis que ajudam a contar o filme. A primeira amostra da narratividade da câmera será na exibição do curta na NAB.

Mesmo assim esse anúncio é um dos mais importantes dos últimos tempos, saímos da briga por mais dynamic range, iso’s atraentes em baixa luz, processamento de arquivos RAW para uma competição ainda mais complexa dentro do conceito de campo luminoso. Sem dúvida a câmera estará disponível apenas para orçamentos milionários, mas a empresa mostrou interesse em chegar ao mercado de consumidores menos abastados.

Claro que devido a magnitude tanto da câmera quanto do processamento necessários não é possível saber quando, como ou mesmo se uma câmera com tal tecnologia poderá chegar ao mercado por algumas dezenas de milhares de dólares ou talvez menos. Mas sem dúvida o crescimento exponencial e a agilidade nas melhorias computacionais podem fazer com que isso ocorra em algum momento dos próximos anos. Por enquanto é aguardar e assistir às cenas e filmes feitos com a Lytro Cinema Camera.

E você, o que achou dessa novidade? Compartilhe seus pensamentos nos comentários.


Por último um agrado para os nerds de plantão, clicando aqui você tem acesso à dissertação de doutorado de Ren Ng e pode ler um pouco mais sobre os estudos dele com relação ao campo luminoso.

doutorado

Fontes:

http://www.redsharknews.com/production/item/3380-is-lytro-s-new-755mp,-300fps-cinema-camera-the-biggest-leap-in-video-tech-ever

https://www.lytro.com/cinema

Dissertação do Ren Ng: https://s3.amazonaws.com/lytro-corp-assets/renng-thesis.pdf

https://en.wikipedia.org/wiki/Light_field

https://en.wikipedia.org/wiki/Michael_Faraday

https://en.wikipedia.org/wiki/Light-field_camera

https://en.wikipedia.org/wiki/Ray_tracing_(physics)

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Graduado em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos, já passou por diversos ramos da comunicação e atuou no Brasil e Canadá. Atualmente trabalha em São Paulo onde executa as funções de filmmaker e editor.

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