O processo criativo de Robert Yeoman

Robert Yeoman é o diretor de fotografia de filmes como “O grande hotel Budapeste”, “Sim senhor”, “Moonrise Kingdom”, entre outros. No seu episódio da série “Creative Spark”, ele conta um pouco mais sobre seu processo criativo.

“Cada pessoa possui uma voz única e criatividade, para mim, é ser capaz de expressar essa voz. Sempre me inspirei mais no visual dos filmes, mais até que no roteiro e outras coisas, as imagens me arrebataram e eu entrei no mundo delas.

Comecei a fazer direção de fotografia na faculdade de cinema e era bom nisso, tinha um talento natural, então nunca olhei para trás e amo o que faço.

O diretor de fotografia basicamente é o responsável pelas câmeras e luzes e trabalho em conjunto com o diretor e diretor de arte para conseguirmos chegar ao visual do filme.

Acho que a direção de fotografia meio que define o tom de certa forma, ela te guia a como você deve se sentir, é uma forma de traduzir o roteiro em termos visuais.

O ideal é que você possa assistir a um filme sem diálogos e ainda ter um sentimento do que está acontecendo.

O roteiro é definitivamente por onde começamos, se estou lendo um roteiro e acho que é ruim ou estúpido, não trabalho nele.

Eu estaria fazendo um desserviço para mim e o diretor, acho que todo mundo quer trabalhar em um filme que seja animador e se não sinto isso, creio que não seria feliz e nem o diretor.

Como inspiração eu vejo livros de fotografias, há vários livros que eu uso, tenho esse livro chamado “Havana” de Robert Polidori, o comprei um pouco antes de começarmos o filme “A Vida Marinha de Steve Zissou“.

Mostrei-o ao Wes Anderson e ele adorou as paletas, não é como se fossemos copiar exatamente as mesmas paletas, mas era um ponto de partida e uma forma de nos inspirar.

Há algo especial sobre estes livros antigos, adoro ir a museus e os uso como referências quando posso, se estou em um museu e há um livro da sua coleção que eu gosto, irei pegar um e mantê-lo como referência, acho que essa é definitivamente uma parte integral do processo.

Eu gosto de ir às locações, especialmente com o diretor, apenas estar lá e falar sobre o local, o que gostamos ou não gostamos, então vou para casa depois de ter estado na locação e faço pequenos diagramas de onde eu acho que a câmera deveria estar e pequenas imagens, isso nos dá um ponto de partida de onde poderemos conversar mais.

Acho que é importante chegar em qualquer gravação com um plano mesmo que você não o utilize.

Eu fui, por exemplo, com Wes à Índia, nós viajamos antes de “A viagem para Darjeeling” e basicamente saímos pela Índia, nos acostumamos a como a vida era por lá, pois é bem diferente que nos EUA e isso me ajuda a entender sobre o que é o filme, quando você pode ir, viver lá e se inserir na vida diária das pessoas.

Com Wes o que nós costumamos fazer, pois usamos película até agora em todos seus filmes, temos uma câmera com filme que trazemos e muitas vezes apenas a preparamos e se estivermos com os assistentes de direção lá, os assistentes de produção, nos fechamos a cena e a gravamos em película sem luz mesmo, apenas para ver como fica e é muito divertido, nos dá a chance de mudar várias coisas e não ter a pressão de vários atores ao redor, embora não haja nada igual a gravar com atores.

Com o Wes Anderson uns 95% dos planos são definidos com antecedência, com outros diretores geralmente não é assim.

Eu sempre operei a câmera, comecei em filmes independentes de baixo orçamento e eles não tinham dinheiro para operadores de câmera, sempre amei operar, sempre senti que se não opera, parece que você define um plano e então deixa outra pessoa se divertir.

Quando gravamos com película, através da lente você vê a melhor imagem, há uma conexão dela com a cena e para qualquer operador é um prazer e honra estar lá e ver essas performances incríveis, me considero um bom operador e nada me deixa mais maluco que um operador ruim, então prefiro estar lá.

Quando gravamos em película você pode ver muito mais diferenças olhando pela lente em relação à luz.

Eu gosto dos desafios todos os dias, é como uma corrente de adrenalina o dia todo e ao final dele você diz apenas “ufa!”.

Lembro de uma citação de Conrad Hall, ele é um diretor de fotografia famoso e, mesmo próximo ao fim, disse que sempre estava nervoso quando chegava e no dia em que não estivesse mais, ele sabia que era hora de sair da área.

Concordo com isso.”

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Graduado em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos, já passou por diversos ramos da comunicação e atuou no Brasil e Canadá. Atualmente trabalha em São Paulo onde executa as funções de filmmaker e editor.

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