A visão do diretor de “O Gigante de Ferro” sobre animação

O editor holandês Kees van Dijkhuizen Jr. produziu um belo vídeo sobre a essência da animação baseado em depoimentos do diretor e roteirista Brad Bird, responsável pela direção de animações como “O Gigante de Ferro“, “Os Incríveis” e “Ratatouille“, confira o vídeo e sua transcrição na sequência.

“Queremos milhares de ideias boas, nós temos oitenta minutos para nocautear todo mundo e não estou querendo dizer para fazer um monte de m**** e cortar a cada dois segundos, como aqueles filmes que incomodam um pouco. Sabe? Não é isso.

Aqui é Brad Bird, diretor e escritor de “O Gigante de Ferro”, “Os incríveis” e “Ratatouille”, animação não é uma forma de arte espontânea, ela tem de ser meticulosamente feita, mas se você fizer isso da maneira certa as pessoas não perceberão a complexidade.

Os cineastas que mais admiro reconhecem o valor da provocação, as pessoas têm uma pressa enorme para ter cenas de ação acontecendo rápido e elas esquecem que há prazer no processo de conhecimento dos arredores.

Tenho algumas sequências onde os personagens vasculham, o tipo de cinema que mais admiro escolhe um momento para provar as coisas, acredito que um bom cineasta desacelera.

Eu não sabia nada sobre este mundo (Ratatouille), foi fácil para eu escrever um cozinheiro sem noção. Como parte do meu processo de escrita eu geralmente pulo dentro do filme em algum momento onde os personagens estão passando por problemas, pois isso me força a fazê-los conversarem e você descobre coisas rapidamente.

O erro que muitos cometem é pensar que você pode forçar as ideias a aparecerem, cada ideia surge de maneira própria, se tentar controlar excessivamente o processo, você o limita. Há uma tendência em muitos filmes de computação de iluminar excessivamente as coisas, acredito que há beleza na escuridão! Apague as luzes, vamos!

‘Lembra dos caras maus daqueles shows que você costumava assistir aos sábados de manhã? Estes caras não são como eles, não irão se conter, pois vocês são crianças, eles vão matá-los se tiverem uma chance, não os deem esta chance.’ (trecho de “Os Incríveis”).

Um erro que as pessoas cometem em filmes de animação é que elas amam o aspecto de “desafiar” a realidade que eles possuem, mas se você quebra essa realidade e posteriormente precisa sentir o perigo, será muito difícil convencer a audiência disso, há expectativas para a animação.

Nos sábados de manhã nós temos esses programas muito estranhos, completamente baseados em conflitos, mas ninguém nunca morre ou se fere de forma grave, não há consequências. É melhor que as crianças percebam que para tudo há um custo, é mais dramático e mais próximo da vida, sabe.

Este não é um daqueles filmes onde você coloca um travesseiro em volta de cada experiência. As pessoas vêem a animação com uma galera dançando e pessoas muito histriônicas, mas animação não é um gênero. Eles ficam falando “o gênero da animação”. NÃO é um gênero!

Animação é uma forma de arte, ela pode ser qualquer gênero.

Você pode fazer um filme de detetives, caubóis, horror, filmes para maiores de 18 anos ou contos de fada para crianças, ela não faz só uma coisa.

Na próxima vez em que escutar “como é trabalhar no gênero de animação?”, darei um soco na pessoa. Você está constantemente tentando fazer o público entrar em um estágio de sensações, como as coisas são sentidas, em vez de como as coisas são. Você está tentando obter uma coisa primordial, simples… aproveitando o aspecto humano de estar vivo.

‘Viu? É assim que que se faz, isso é old school.'”

Lembrando que Brad Bird não endossou o vídeo e que, não necessariamente, as cenas de outros filmes representam sua opinião sobre eles, a edição e escolha de imagens foi toda feita por Kees.

 

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Graduado em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos, já passou por diversos ramos da comunicação e atuou no Brasil e Canadá. Atualmente trabalha em São Paulo onde executa as funções de filmmaker e editor.

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