Como é falhar em uma grande produção

Saber lidar com a falha dentro do ambiente de trabalho é essencial para nossa saúde profissional e mental. Nas produções audiovisuais as falhas geralmente possuem um caráter um pouco mais agressivo, afinal, quase sempre falhamos em público, muitas vezes em escala mundial.

O cinema também é uma área muito ligada a um provável talento, então, ao falharmos criamos um campo de críticas que não apenas questionam a execução da nossa função, mas, na verdade, se realmente somos “talentosos” para um trabalho tão complexo.

Baseado nisso, Sean Hood, um dos escritores de Conan, o Bárbaro 3D, compartilhou um pouco do seu sentimento com o filme, que não foi bem tanto na crítica, quanto na arrecadação, nada melhor que alguém que “fallhou” em uma produção com orçamento de mais de $90 milhões para contar qual o sentimento de não obter o sucesso que esperava.

Quando você trabalha na “linha de cima” em um filme (roteirista, diretor, ator, produtor, etc.) assisti-lo fracassar nas bilheterias é devastador. Eu tive essa experiência durante o fim de semana de abertura de Conan, o Bárbaro.

O dia de abertura de um filme é análogo à noite de eleições. Embora eu nunca tenha trabalhado em política, me lembro de ter os mesmos sentimentos de desilusão e decepção quando meu candidato perdeu a disputa presidencial, então imagino que um redator de discursos ou angariador de campanha deve sentir o mesmo que trabalhar em um filme fracassado.

Pessoas se unem ao filme da mesma forma que se unem à campanha, anos antes da eleição ou lançamento e no começo estão cheias de entusiasmo e fé. Entrei para o time de Conan, personagem que eu já amava dos quadrinhos e livros de Robert E. Howard, cheio daquela energia bruta e foco, necessários na política.

Qualquer produção, como uma longa e cansativa campanha por meses e anos, é repleta de crises, compromisso, exaustão, conflito, exaltação e uma fé cega que se trabalharmos duro os resultados aparecerão ao final. Durante este processo qualquer raiva, frustração ou desentendimento que você tenha com o candidato/filme, você mantém para si. Em seu interior é possível discordar de várias decisões, estratégias e compromissos. Você pode descobrir coisas sobre o candidato que podem ofuscar sua determinação e abalar sua confiança, mas continua comprometido até o fim. Você racionaliza isso ao pensar que tudo será recompensado quando o candidato ganhar ao final.

Alguns meses antes do lançamento os números de rastreamento desempenham nos filmes o mesmo papel das pesquisas na política. É fácil ficar empolgado como um estudante universitário entregando panfletos para Howard Dean. Meses antes de Conan ser lançado muitos acreditavam que a produção poderia abrir como “Os Mercenários”. Conforme o dia do lançamento vai chegando e os números começam a cair, você começa a ajustar expectativas. Mas sempre com um tipo de otimismo desesperado. “Não acredito em pesquisas”, diz o candidato sorridente.

Você acredita que publicidade e o “boca a boca” melhorarão os números e mesmo quando eles ficam ainda mais apertados e os presságios mais obscuros, você continua dizendo a si mesmo que as coisas vão melhorar, que o seu “cara” irá surpreender os especialistas e pesquisadores. Você continua otimista. Começa a seletivamente ignorar más notícias e dar ênfase às boas, extrai o melhor de tudo, você acredita.

Poucos dias antes do lançamento você recebe todos os tipos de parabéns da família e amigos. Todo mundo acredita que ele se sairá bem e que tem algo positivo a dizer, então você se deixa sugar por isso.

Você diz a si mesmo para apenas aproveitar o processo. Que mesmo se você obtiver sucesso ou falhar, vencer ou perder, ficará tudo bem. Você pretende ser Zen. Adota o desprendimento, um humor irônico, enquanto secretamente reza por um milagre.

A sexta-feira de lançamento é como a terça-feira de eleição. “Sondagens” são feitas com as pessoas deixando os cinemas e uma bilheteria esperada começa a aparecer no período da tarde, como as pesquisas “boca de urna”. Você está grudado ao computador, clicando selvagemente nos websites, falando sem parar com colegas. Os números já apareceram? É nessa hora que seu estômago começa a pesar.

Lá pelas nove da noite já está claro que seu “candidato” perdeu por uma margem muito grande, mais do que você ou mesmo os observadores políticos mais conservadores poderiam ter previsto. Com um filme é quase a mesma coisa: revistas comercias como a Variety e a Hollywood Reporter mostram os vencedores e perdedores do final de semana baseadas em números. É quando a realidade da perda aparece de vez e você não dorme naquela noite.

Nos dias seguintes você caminha meio entorpecido, seus amigos e família oferecem palavras de carinho, mas tentam evitar o assunto. Como você havia planejado (acreditado fortemente, apesar de tudo) que o sucesso iria levá-lo a novas oportunidade e compromissos, você se vê perdido sobre o que fazer na sequência. Tudo pode parecer muito sombrio.

Você tenta levar de uma forma leve, brinca e dá de ombros. Mas o estrago no seu ego e reputação não podem ser escondidos. Os reviews, mesmo quando eram positivos, zombavam de Conan, o Bárbaro por sua falta de história, falta de caracterização e falta de inteligência. Isso não fala nada bem do roteiro e qualquer cineasta que diz não ler críticas apenas não quer admitir o quanto elas incomodam.

Mas um pensamento nesta manhã melhorou o meu humor:

Meu pai é um trompetista aposentado. Lembro-me, quando eu era um menino, vê-lo gastar meses se preparando para uma audição com uma filarmônica. Posições de trompetistas em grandes orquestras só ficam disponíveis uma vez durante muitos anos. Vários músicos de altíssimo nível iriam até lá de qualquer lugar do mundo por essas vagas. Lembro-me do meu pai chegando em casa dessa competição, uma competição que ele queria muito ganhar, uma competição que ele precisava desesperadamente ganhar, pois era difícil achar trabalho. Após centenas de candidatos e dias de audições e ligações de retorno, meu pai conseguiu… o segundo lugar.

Foi devastador para ele, ele parecia anestesiado. Chegar tão perto e perder arrancou seu coração. Mas na manhã seguinte, às 06h, da mesma forma que ele vinha fazendo desde os 12 anos de idade, ele fez seus exercícios. Fez seus aquecimentos, praticou suas rotinas usuais, as mesmas que ele diz aos estudantes para praticarem diariamente. Ele não tirou a manhã de folga, ele apenas continuou. Ele era e é um trompetista e é isto que trompetistas fazem, seja no sucesso ou na falha.

Menos de um ano depois, ele conseguiu ganhar uma posição da Filarmônica de Los Angeles, onde tocou por três décadas. Ainda bem que ele continuou praticando.

Então, com o exemplo do meu pai em mente, aqui estou, café quente na caneca e o cachorro dormindo aos meus pés, começando meu trabalho para o dia, revisando, mais uma vez, outro roteiro, trabalhando em outro pitch, pensando no futuro (o novo projeto, a nova eleição). Pois eu sou um roteirista, e é isto que roteiristas fazem.

Para a próxima campanha…”

O post original (em inglês) pode ser acessado aqui.

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Graduado em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos, já passou por diversos ramos da comunicação e atuou no Brasil e Canadá. Atualmente trabalha em São Paulo onde executa as funções de filmmaker e editor.

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