Num Piscar de Olhos – Walter Murch

Walter Murch é um daqueles poucos profissionais no cinema de alto nível que conseguem conciliar teoria e prática com maestria, tanto que seu livro, o famoso “Num Piscar de Olhos“, é leitura obrigatória na disciplina de edição em qualquer curso de cinema ou audiovisual.  Não bastasse o livro essencial em qualquer faculdade, Murch foi indicado ao Oscar seis vezes e levou a estatueta por três vezes.

 Num Piscar de Olhos

Uma parte do livro é dedicada a contar sobre o processo que levou Murch à teoria do piscar de olhos. Logo após sair de uma reunião Walter retornou a sua sala de trabalho e teve um choque com a brutalidade da edição e a quebra de continuidade visual por ela gerada. Em nossa vida não temos mudanças de enquadramento instantâneas, se isto é algo que não temos inserido em nosso dia a dia, então como aceitamos filmes construídos exatamente através dessa agressividade da edição? Seria apenas uma invenção conveniente ou as pessoas se acostumaram?

Para tentar explicar o fato Murch busca significado no mundo dos sonhos, onde temos contato com esse tipo de linguagem visual desconexa. Isso poderia explicar o fato de aceitarmos a linguagem da edição, mas segundo o próprio autor:

“O problema da comparação entre filmes e sonhos é que ela é interessante, provavelmente verdadeira, mas relativamente infrutífera. Sabemos tão pouco sobre a natureza dos sonhos que não há o que acrescentar à observação, depois de feita.”

Ele então começou a cogitar outras possibilidades principalmente durante o processo de edição do filme “A conversação” quando percebeu que Gene Hackman sempre piscava em momentos muito próximos de onde ele decidia cortar. Até que em certa manhã ele teve contato com uma entrevista de John Huston, onde este citava exatamente a questão do piscar de olhos:

“Para mim o filme perfeito é aquele que se desenrola como que por trás dos seus olhos, como se o seus olhos o projetassem e você estivesse vendo o que quer ver. Filme é como pensamento. De todas as artes, é a mais próxima do processo de pensar.
Olhe para aquela lâmpada ali. Agora olhe para mim. Olhe de novo para a lâmpada. Agora para mim de novo. Viu o que fez? Você piscou. Isso são cortes. Depois de ver uma primeira vez, você sabe que não precisa fazer um movimento contínuo entre mim e a lâmpada porque já sabe o que tem no meio. A sua mente corta a cena. Primeiro você olha a lâmpada. Corta. Depois olha para mim.”

(Christian Science Monitor, 11.08.1973. Louise Sweeney entrevista John Huston.)

Parece então a Murch que nosso ritmo de piscar é controlado muito mais pelo estado emocional e natureza de pensamento do que pelo ambiente atmosférico onde nos encontramos. A fala contém pequenas marcações que definem seu início e final sem que percebamos, então, ao falar com alguma pessoa ela irá piscar quando perceber que sua introdução teve fim e você passará à mensagem principal. Absorvemos uma ideia ou uma sequência delas e “piscamos para separar e pontuar essa ideia para o que vem a seguir”.

Se o fato de piscar está tão atrelado às nossas emoções e pensamentos então um ator que se projeta com sucesso nas emoções e pensamentos de um personagem vai começar, natural e espontaneamente, a piscar nos momentos em que o personagem piscaria na vida real.

Teoria na Prática

O vídeo do canal “This Guy Edits” tenta exatamente mostrar como o piscar de olhos dos atores acabou influenciando a edição:

Teoricamente o piscar de olhos está diretamente ligado ao processo de pensamento do ator, que neste caso estaria vivendo o personagem caso ele esteja “atuando bem”. Então a ideia é ficar atento a como os atores piscam e passam de um pensamento a outro ou dirigem seu olhar para outro lugar.

Lembrando que estamos falando de um estilo de edição invisível aos olhos, que é o padrão mais utilizado na narrativa clássica. Por isso existe a definição de um bom editor como sendo alguém capaz de dar coesão e ritmo ao filme de maneira imperceptível, mas há outros estilos que acabam exigindo outros tipos de editores.

Além de toda a teorização sobre o piscar de olhos, o primeiro vídeo acaba seguindo bastante o olhar dos atores em cena, que é algo explicado de maneira mais didática no próximo vídeo:

Buscar ritmo e a mudança de pensamento ou foco na visão do personagem são duas variáveis constantes quando falamos de edição invisível. A principal dica do vídeo acima é seguir a ação e a perspectiva do personagem, você olha para onde ele está olhando, corta e volta para ele e depois volta novamente. Pois a ideia não é fazer cortes que gerem distrações e percam a imersão dos espectadores no filme.

Tornar-se um bom editor exige muito estudo e prática, então o melhor a fazer caso esse seja o seu foco é ler grandes autores como Walter Murch, estudar a história e movimentos importantes como o construtivismo russo e praticar sempre. Como o próprio Murch diz no vídeo a seguir: editar é parecido com contar uma boa piada, ela pode ser ótima, mas se você a conta sem o ritmo certo, acaba tornado-a vazia. O mesmo vale para um ótimo filme mal editado.

No livro Murch se aprofunda muito mais em vários outros aspectos, inclusive em como a reação do piscar de olhos do público pode dar uma ideia quanto à conexão dele com o filme que assiste, leitura mais que recomendada.

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Graduado em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos, já passou por diversos ramos da comunicação e atuou no Brasil e Canadá. Atualmente trabalha em São Paulo onde executa as funções de filmmaker e editor.

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