Correção de Cor ou Color Grading? Os dois!

Nos últimos anos o trabalho do colorista tem ficado cada vez mais em evidência, graças à popularização de câmeras que conseguem entregar arquivos com imagens mais “flats” e também de softwares como o DaVinci Resolve que é disponibilizado gratuitamente em uma versão mais que completa para produtores independentes. O poder de manipular as intensidades de luz e a saturação das cores é enorme e parte integrante de qualquer produção de alto nível, como dá para notar no reel abaixo:

Entendendo a diferença entre os termos

Vale ressaltar que essa é a definição utilizada majoritariamente no mercado, você não será punido por dizer que está fazendo a correção de cor quando na verdade está na etapa de grading do seu vídeo, no entanto, não saber a diferença entre as duas definições pode gerar confusão quando um colorista estiver no projeto, algumas falhas na comunicação podem ocorrer, então para deixar claro vamos aos termos:

Correção de cor: é o processo onde todo clipe recebe ajustes manuais para obter uma boa exposição e balanço de luzes, cada clipe é ajustado para bater uma determinada temperatura de cor definida previamente para a cena. É um processo mais técnico e mecânico e o uso de scopes é essencial (Waveform, Vectorscope, Parade), muitos editores possuem estes scopes nativamente e isso é muito bom, pois sem eles você estaria ajustando às cegas e confiando apenas nos seus olhos (que acabam se ajustando à luz e cor do ambiente) e também em monitores que podem não estar calibrados, se guie e confie nos scopes e deixe que eles tem levem pela correção que deseja.

Color Grading: é o processo criativo onde decisões são tomadas para estabelecer ou criar o clima desejado para as cenas através de um software, tais como: acentuar determinadas cores, emular estilos entre outras escolhas. Sendo algo puramente criativo, neste processo não há certo ou errado, apenas o que o diretor de fotografia, colorista e diretor querem para a cena. Pode ser algo sutil e quase imperceptível ou um estilo bem mais acentuado. E é aí que entra o desafio de fazer a escolha certa, as ferramentes disponíveis são várias e poderosas, a questão é saber usá-las com precisão para o que o filme pede.

O que é RAW e Log

Antes de tudo é necessário explicar o motivo de você não conseguir editar as cores como quer em um arquivo feito na sua DSLR. Muito provavelmente ele é um arquivo H.264 e o que isso quer dizer? Explicando brevemente, quer dizer que a imagem já passou por uma alta compressão para conseguir se gravada no cartão SD, fazendo com que o número de stops dela esteja longe do ideal para a edição de cores. O vídeo a seguir ajuda a explicar isto visualmente:

Um arquivo com muita compressão acaba limitando drasticamente as possibilidades de edição em seus níveis de luz e cores, é importante dizer isso para que você não se sinta frustado ao tentar aprender estas etapas com arquivos que já passaram por algumas compressões. Hoje em dia temos cada vez mais opções diferentes de gravação e LUT’s próprios, caso vocês não saiba o que são LUT’s, esse vídeo pode ajudar:

Antes de seguirmos com a explicação sobre RAW e Log é legal explicarmos o que significam alguns termos técnicos:

  • Stop: É a unidade de medida de luz durante a exposição de uma cena, ao trabalhar em um set ou com um diretor de fotografia você ouvirá ele dizendo muito “diminuir 1 stop, aumentar 1/3 stop” e assim por diante. Cada stop representa o dobro de luz do stop anterior, então se ele pede para aumentar 1 stop do lado direito do rosto do ator, isso quer dizer que o dobro de luz atingirá seu rosto. Indo mais a fundo temos F-Stop e T-Stop, neste vídeo temos Richard Schleuning da Zeiss explicando o que é cada um:

O que ele explica é que o F-Stop é basicamente uma medida matemática para calcular a quantidade de luz que atravessa a lente baseado em seu projeto. Já o T-Stop é a medida da luz que passa pela lente de acordo com a taxa de transmissão de luz que ela alcança, basicamente seria o F-Stop dividido pela quantidade de luz que passa pela lente.

  • Latitude: é a quantidade de exposições que uma emulsão suporta antes de começar a perder informação. É um termo utilizado para película, mas entender seu conceito é necessário para que possamos entender outros conceitos que surgiram com o digital. A película carrega geralmente uma grande latitude e esta foi uma das principais discussões no início do cinema digital, as câmeras digitais não conseguiam entregar tanta latitude quanto a película.
  • Dynamic Range: apesar de estar relacionado a latitude, não podemos traduzir dynamic range literalmente como latitude, na verdade seu conceito vem como a variação entre o menor e maior valor que um sinal pode ser captado. Por isso em uma feira como a NAB você vê expositores falando que o dynamic range da sua câmera é, por exemplo, de 14 stops. Viu só, sem saber o que é um stop você apenas acenaria e concordaria com o que ele disse.

O site prolost trouxe um ótimo artigo explicando as pequenas diferenças entre RAW e Log, e o motivo de citarmos estes dois termos é que como colorista ou responsável pelo grading dos seus filmes eles acabarão se tornando corriqueiros. Você provavelmente já mostrou algum material para um colorista ou diretor de fotografia experiente e ele disse na hora que aquilo foi gravado em uma DSLR, ele não tem um sexto sentido, o que acontece é que até bem pouco tempo um dos maiores gargalos de imagem das DSLR’s, por exemplo, era o fato delas não lidarem bem com superexposições, era super fácil perder informação em áreas de alta luminosidade. Todas essas pequenas características de cada câmera, lente e formato de gravação acabam ficando perceptíveis para profissionais com o passar do tempo.

O que a gravação em RAW e algumas variações de Log trouxeram foi exatamente a possibilidade de alcançar um dynamic range maior, o que foi ocorrendo passo a passo de acordo com a evolução de sensores, processadores e cartões de gravação. Dessa forma hoje em dia mesmo com uma DSLR é possível fazer imagens que carregam mais informações e não te deixam de mão atadas durante o processo de grading. Mas este assunto é muito extenso e o foco aqui é color grading, então o importante é apenas saber de onde está vindo seu arquivo, o tipo de compressão e codec que utliza, assim você consegue saber antecipadamente se terá como trabalhar bastante o grading ou se estará limitado por especificações técnicas.

Por exemplo, com uma Canon 5D Mark II é possível usar o Technicolor Cinestyle ou o Canon Neutral com o mínimo de nitidez e contraste. Geralmente as empresas disponibilizam profiles prontos com um visual contrastado e que fica até bonito na câmera, mas ao checar no seu monitor você vai perceber pretos sem informação nenhuma e brancos estourados. Como profissionais o ideal é sempre não apelar para essas soluções prontas e trabalhar a imagem de acordo com o que precisamos, capturando-a de maneira flat para definir seu visual no momento do grading.

O que procurar nos editores

As nomenclaturas podem variar um pouco entre os editores, mas você provavelenteverá um destes três nomes:

  • Lift-Gamma Gain
  • Shadows – Midtones – Highlights
  • Blacks – Mids – Whites

Eles basicamente significam qual porção da imagem está sendo afetada, entre os três você tem a opção de trabalhar diretamente em três porções da luz: as altas, médias e baixas. Desta forma você consegue ajustar estas porções de luz na imagem e não editá-la como um todo, o que pode trazer resultados que você não quer.

Confie na Waveform, VectorScope e Parade

Os scopes são essenciais para qualquer correção de cor. Imagem: Noam Kroll

Os scopes são essenciais para qualquer correção de cor. Imagem: Noam Kroll

Esses scopes são literalmente todas suas informações técnicas sobre a cena, sua utilização é mais que essencial para realmente definir seus valores com precisão e sem influência do olhar, mesmo não tendo um monitor calibrado, que pode ser muito caro, se você confiar no seus scopes e trabalhar direito com eles pode garantir um ótimo resultado técnico. A Waverform te dá toda a informação sobre luminância na cena, o Vectorscope te dá a informação sobre a crominância e o Parade te mostra os valores de vermelho, verde e azul separadamente.

A ordem em que você faz as etapas da correção de cor pode afetar diretamente na manutenção da informação na imagem, seguindo a lógica de Stu Maschwitz, o ideal seria seguir a seguinte ordem de operação:

  • Remover artefatos e usar de-noise
  • Balancear seus planos pelo black/mid/white, saturação e balanço de branco
  • Re-iluminar dentro de um plano usando power windows ou máscaras
  • Adicionar gradientes, difusões e outros filtros de lente
  • Adicionar vinhetas
  • Fazer o grading das imagens
  • Simular alguma película que você queira
  • Redimensionar e adicionar detalhe

Lembrando que você não precisa executar todas essas etapas em cada plano, mas caso vá executá-las, essa seria a ordem ideal. A ideia por trás dessas etapas é neutralizar sua imagem antes que você comece a realmente editar as cores presentes nela, primeiro você trabalha com o quadro de maneira geral e pode, inclusive, começar os ajustes pelo plano mais aberto que a cena tenha. Ao fazer isso você ajusta a cena como um todo, na sequência você pode inserir powers windows (DaVinci) onde irá trabalhar áreas sub ou superexpostas na imagem, por exemplo, uma porta aberta com muita luz entrando ou alguém com roupas pretas que ficaram sem informação, o mesmo vale para cores muito saturadas na imagem.

Exemplo de ajuste na exposição (superexposição). Imagem: Noam Kroll

Exemplo de ajuste na exposição (superexposição). Imagem: Noam Kroll

Trabalhar na neutralidade de todas as cenas antes fará com que você ganhe muito mais tempo na etapa de grading e principalmente caso você queira alterar algo depois, esta estapa se bem executada fará com que você tenha uma imagem básica e livre de todos ou quase todos os artefatos que poderiam atrapalhar. Lembrando que no caso de trabalhar em um produção grande e com um diretor de fotografia responsável você provavelmente terá uma imagem “perfeita” ou quase perfeita, o que signifca que o diretor de fotografia teve tempo, equipe e equipamentos para iluminar exatamente como queria e deixa a exposição perfeita de acordo com o que ele e o diretor pensaram.

Ajuste seus blacks primeiro

Ajustando os blacks primeiro você define sua baseline para ajustar o resto da sua imagem, você perceberá que ajustando os black’s e whites irá afetar sua waveform como um todo, então será uma questão de equilíbrio achar o ponto certo entre os dois. Já os midtones não afetam os black’s e whites, por isso vocês os deixa por último. Se você subir os midtones irá perder saturação de maneira geral na imagem, então para compensar aumente um pouco a saturação para manter as cores pulsantes.

A importância dos médios

Exemplo de trabalho com os médios para tons de pele. Imagem: Vashi Nedomansky

Exemplo de trabalho com os médios para tons de pele. Imagem: Vashi Nedomansky

Geralmente é nos meios tons de luz que a tonalidade da pele está presente e se você gosta de estudar direção de fotografia deve saber que os tons de peles são o principal guia durante qualquer captação. Pode parecer mais cômodo apenas aumentar a exposição durante os ajustes em um software, mas isso irá alterar a cena como um todo e não será tão efetiva se não tratar diretamente o nível que você deseja. Uma pela bem exposta geralmente fica com seu IRE entre 60 e 70 na waveform, cuidado ao “puxar” muito os tons médios, pois eles costumam trazer muito ruído à imagem, mas como em toda variável no cinema, quanto mais conhecimento e experiência você tiver em direção de fotografia mais fácil será optar por um IRE um pouco mais elevado ou mais baixo dependendo do que busca ou mesmo da câmera e formato em que está gravando.

Trabalhando os médios das cores

É possível traçar uma linha imaginária no Vectorscope que é referente aos tons de pele do seu vídeo, apesar de várias raças e diferentes tons de pele, essa linha não irá variar em nenhum caso, pois todos nós temos o mesmo pigmento que é registrado como tom de pele. Dependendo do plugin ou software que vocês estiver usando será possível alterar zonas de cores específicas para um resultado mais próximo ao que se deseja. Se a imagem foi capturada com um balanço de branco correto então provavelmente esse ajuste de cor será mais sútil e rápido, para tons de pele naturais tome cuidado especial com vermelho, rosa e verde, a saturação também deve ser ajustada para deixar os tons mais naturais.

Fleshline (Linha da Pele) detalhadamente. Imagem: VASHI NEDOMANSKY

Fleshline (Linha da Pele) detalhadamente. Imagem: Vashi Nedomansky

O que anda rolando por Hollywood?

Não podemos esquecer que por quase um século Hollywood teve tempo para padronizar e aprimorar sua produção com película, antes do digital basicamente todo o processo se resumia a um tipo de mídia, a película. Com isso padrões durante o processo de produção e exibição foram estabelecidos, garantindo maior solidez à indústria.

Com o surgimento do digital todos esses padrões simplesmente desmoronaram, você tinha câmeras entregando diferentes espaços de cores e codecs, formatos de exibição em desenvolvimento e vários tipos de mídia diferentes até o produto final de exibição. O ACES foi desenvolvido visando exatamente criar padrões de imagem nas produções de Hollywood, imagine ser o colorista de um filme que será exibido em Nova Iorque e em uma pequena cidade do interior da África do Sul e ter de garantir que o tom dado ao filme pelas cores será o mesmo? Para obter isso só com uma padronização de alto nível do início ao fim da produção.

Na NAB2015 o Ivan aqui do Cinematográfico teve uma conversa super esclarecedora com Andy Maltz que trabalha para a Academia responsável pelo Oscar (Academia de Artes e Ciências Cinematográficas), ele contou em mais detalhes tudo sobre o ACES e nada melhor que ter informação diretamente dos responsáveis pelo projeto, vale a pena ver o vídeo para entender como funciona o sistema.

Um mundo a ser explorado

As possibilidades de abordagem quando o assunto é color grading são inúmeras e não há uma receita de bolo pronta, se por um lado temos as métricas claras para uma boa exposição e os ajustes guiados por scopes mais precisos durante o primeiro processo, por outro temos também toda a questão artística durante o segundo. O tom do seu filme, da sua cena, qual característica narrativa você quer ajudar a acentuar, tudo isso fará parte da sua tomada de decisão na escolha das cores que vai reforçar ou utilizar.

Hoje em dia é possível baixar arquivos de câmeras como a BlackMagic e RED gratuitamente na internet para que você possa praticar suas habilidades de colorista no DaVinci Resolve (que também é gratuito) ou mesmo em editores de vídeo. Quanto mais você estuda, mais percebe como essa área abrange várias outras, intercalada na pós-produção e conversando diretamente com os desejos narrativos do diretor e diretor de fotografia,  o colorista é mais um dos artistas técnicos do filme e o casamento entre seu conhecimento sobre formatos, displays e scopes se intercala com sua capacidade artística para acentuar o tom da cena. E você? Costuma fazer essa etapa por conta própria? Contrata um colorista dedicado quando tem o orçamento disponível? Como faz a edição das suas cores?

Fontes:

  • https://www.hurlbutvisuals.com/blog/2012/01/cinematography-online-7-tips-for-hd-color-correction-and-dslr-color-correction/
  • https://en.wikipedia.org/wiki/Color_grading
  • http://prolost.com/blog/rawvslog
  • https://en.wikipedia.org/wiki/Exposure_latitude
  • https://www.arri.com/BR/camera/alexa/learn/log_c_and_rec_709_video/
  • http://www.arri.com/BR/camera/alexa/workflow/working_with_arriraw/arriraw/de_bayering/
  • http://noamkroll.com/the-best-order-of-operations-for-color-grading-why-it-makes-all-the-difference/

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Graduado em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos, já passou por diversos ramos da comunicação e atuou no Brasil e Canadá. Atualmente trabalha em São Paulo onde executa as funções de filmmaker e editor.

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