Anatomia de uma cena – O Regresso

O New York Times possui uma série chamada Anatomy of a Scene (Anatomia de uma cena, livre tradução). Onde um diretor explica o que pensou para a cena sendo exibida e como ela foi executada, no site deles você pode encontrar cenas de vários filmes que concorreram ao Globo de Ouro este ano e para este primeiro post escolhemos uma cena de O Regresso, que levou a estatueta na categoria melhor filme e que terá sua estreia em terras brasileiras no dia quatro de fevereiro, sendo narrada pelo próprio diretor Alejandro G. Iñárritu, a cena em si não dá nenhum spoiler essencial ao filme, mas sem dúvida fará muito mais sentido assisti-la depois de ter visto o filme inteiro.

“Olá, meu nome é Alejandro González Iñárritu e sou o diretor de O Regresso. Bem, essa é a última  cena interpretada pelo Leonardo DiCaprio, onde ele está sobrevivendo após ter sido abandonado em uma caverna perto do rio, quando a tribo Arikara chega ao mesmo local, eu queria que a câmera resolvesse essa cena um único plano para colocar os espectadores no ponto de vista do personagem. sentir o que ele está sentindo, ver o que ele está vendo… agora a câmera faz uma panorâmica (00:38), para mostrar o que ele está vendo que é o líder Arikara procurando por eles e ele não tem outra opção a não ser tentar fugir silenciosamente dali. E Chivo (Emmanuel Lubezki, diretor de fotografia) aqui entra nessa água que estava super gelada, assim como o Léo com essa pele super pesada, nós ensaiamos essa cena por semanas e tivemos sorte de encontrar essa caverna super próxima ao rio, assim conseguimos trabalhar a linguagem visual para que tudo se resolvesse em um plano. Aqui são os nativos sobre ele (01:16), nós fazemos a panorâmica e vemos o que ele está vendo, nos sentimos presos. Eu queria que as pessoas se sentissem claustrofóbicas quando o chefe visse ele, giramos novamente e caímos no rio. Eu gosto como isso se torna subjetivo e dá para ver como ele vai desaparecendo na tela.  Para o resto da cena tivemos de achar um outro rio que fosse mais “amigável” e não tão frio em Montana e foi um grande desafio logístico encontrar algo que casasse com o anterior. Agora nós vamos variando entre esses planos mais longos onde vamos para a superfície e para baixo da água, fazendo com que o som aqui seja extraordinariamente importante para sentirmos a audição do personagem e como o rio engole ele em diferentes planos, agora o plano do helicóptero (02:06) para vermos a potência da água que o engole. E, de novo, foi difícil ficar tão próximo ao Léo e aqui há uma plano super perigoso que fizemos neste rio (02:17) onde um dublê faz essa queda e foi tudo extremamente perigoso, um momento bem assustador e aí casamos com cenas do Léo, ele foi super corajoso, foi uma cena que exigiu muito fisicamente, de certa forma ele tem de escapar e o rio o salva, não apenas dos Arikaras, mas o personagem de certa forma usa o rio como meio de transporte, como uma rodovia, pois para ele nas condições em que estava, totalmente quebrado pelo ataque do urso, durante o processo em que ele se encontrava ainda se recuperando o rio foi um ótimo meio de transporte para colocá-lo mais próximo ao Fort Kiowa, o que poderia ter acontecido com o personagem real, na vida real. Se ele não tivesse utilizado o rio como transporte não poderia ter sobrevivido a tantas milhas se arrastando naquelas condições, aqui ele encontra esse tronco e vai navegar para mais longe (03:15).”


Sem dúvida alguma uma das melhores formas de se aprender sobre cinema é escutando quem produz contar um pouco mais sobre seu processo criativo e a série do New York Times vem de encontro a o que praticamente todo estudante de cinema busca, o próprio cineasta contando o que tentou contar e alcançar em uma cena específica, com certeza um prato cheio para conhecer um pouco mais sobre a sétima arte.

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Graduado em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos, já passou por diversos ramos da comunicação e atuou no Brasil e Canadá. Atualmente trabalha em São Paulo onde executa as funções de filmmaker e editor.

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