A evolução das câmeras no cinema digital

O alto custo do sistema película-película

Você já parou para imaginar que há pouco menos de vinte anos todos os filmes ainda eram gravados e finalizados em película? Mais que isso, que há pouco menos de dez anos você, produtor sem um orçamento milionário nas mãos, se via estrangulado entre câmeras que não foram desenvolvidas para contar histórias e que ainda assim eram bem caras?

Durante as últimas duas décadas o cinema passou por uma transição importantíssima, saiu do consagrado fluxo de trabalho película-película (gravado, processado e finalizado) que existiu por quase cem anos, para uma etapa de transição digital-película, onde as câmeras digitais ainda sofriam e caminhavam para dar a mesma qualidade narrativa da película, até o momento atual onde o processo digital-digital (gravação, processamento e exibição) tomou conta de boa parte das produções.

O início da revolução DSLR

Há menos de dez anos eram lançadas as primeiras DSLR’s e um dos principais vídeos que mostraram seu poder tem cerca de apenas seis anos! De repente, você tinha a opção de usar lentes específicas e gravar com uma câmera que trabalhava a favor da narrativa e o melhor de tudo: essa câmera não custava centenas de milhares de reais.

Neste curtíssimo espaço de tempo, através do trabalho conjunto entre usuários (como o Magic Lantern) e as empresas produtoras, passamos de câmeras que aqueciam e gravavam poucos minutos para opções muito mais potentes com relação a gravação, sensibilidade e vários outros fatores.

Focado nessa revolução que tomou conta do mercado nos útimos anos, Richard Lackey produziu um texto fantástico exatamente sobre ela para o site Cinema5D e nós do Cinematográfico traduzimos esse material incrível para você conhecer um pouco mais dessa história que está apenas começando.

A evolução das câmeras no cinema digital

Traduzido do texto original de Richard Lackey

As câmeras com grandes sensores de cinema digital que conhecemos hoje tiveram uma interessante história de evolução e convergência. Compreender a história do cinema digital é um ótimo ponto de partida para entendermos o motivo de termos tantas câmeras diferentes hoje em dia, pois elas convergiram para algumas similaridades (um sensor único 35mm Bayer, por exemplo), mas também a razão para tantas diferenças.

  • Por que algumas câmeras parecem priorizar a compressão interna e outras o RAW?
  • Por que algumas apresentam filtros ND de fábrica e outras não?
  • Por que há tantas diferenças no acabamento e ergonomia entre elas?

Para cada formato e combinação de características há um mercado específico. Câmeras diferentes atuam com necessidades especificas e funcionam bem para as necessidades de seus donos. Logo, não há uma câmera que possa ser considerada perfeita para todas as áreas. Como essa árvore evolucionária se parece?

Suas raízes no vídeo

Desde uma camcorder miniDV até a Canon XL1 e a popular Sony PD150, desde o vídeo entrelaçado até câmeras para transmissão em HD, as câmeras com sensores digitais tem sua estrutura vinda das utilizadas na televisão/transmissão. Talvez não gostemos de admitir isso, mas nossas câmeras de cinema digitais estão mais próximas de uma DV do que película.

No entanto, foi o desejo de uma imagem mais “cinematográfica” com mais características de película que proporcionaram ao vídeo digital sua maior mudança de direção e este desejo não veio dos profissionais de televisão, mas sim de toda uma geração de cineastas independentes descontentes.

ps_technik_mini35hvx-300x225Tudo começou com pesados adaptadores de lentes 35mm, projetando uma imagem super 35mm de uma lente de cinema PL em um vidro base, que era então focado no prisma bem menor da camcorder de 3 chips através da lente zoom dela. Isso possibilitou o uso da ótica, o restante era com relação à câmera. Os adaptadores P+S Technik Mini-35 e o Pro-35 abriram um mundo de possibilidades para cineastas presos no DV.

Panasonic DVX100

Panasonic_AG-DVX100

Ao mesmo tempo começamos a ver alguns padrões progressivos de captura e uma taxa de quadros “de cinema” com 24qps em algumas câmeras de vídeo, a Panasonic DVX100 foi a primeira e mais popular câmera a apresentar suporte para 24p, tornando-a ponto essencial a o que viria mais à frente. A DVX100 gravava em SD e também em uma fita, mas ela deu o poder a uma geração de cineastas de criar filmes obtendo imagens mais cinematográficas, algo que era impossível antes.

Sony CineAlta

A revolução do cinema digital tinha começado vagarosamente e não estava completamente esquecida em Hollywood e entre os maiores produtores de câmeras. Em Junho de 1999, George Lucas anunciou que o episódio II de Star Wars seria gravado digitalmente.

A Sony e Panavision criaram a HDW-F900, a primeira câmera HD 24p CineAlta. A Sony HDW-F900 e na sequência a F950 (usada para gravar Star Wars Episódio III) eram ainda esboços do que seria o sistema de transmissão com câmeras em HD.

Sony HDW-F900

HDW-F900 a primeira câmera HD 24p CineAlta

As Câmeras do Cinema Digital – Da Dalsa Origin a RED One

As câmeras de cinema digital de hoje em dia são resultado da tecnologia de vídeo digital tentando igualar a película. Esse é o primeiro galho na árvore da família de vídeo digital, dando origem a dois segmentos distintos.

O segmento original continua até hoje e nos dá tecnologia mais avançada em câmeras de broadcast e lentes. Já o outro caminhou em direção à criação das câmeras de cinema digital de 35mm, desenvolvidas para serem operadas dentro do mesmo ambiente das câmeras de película e satisfazer todas as suas necessidades.

Essas eram as especificações do cinema, onde a qualidade de imagem é obrigatória e a câmera precisa satisfazer ergonomicamente sua utilização em set por parte do departamento de câmera, não um operador específico, televisão ou equipe de notícias.

Dalsa_OriginUma empresa pouco conhecida envolvida em desenvolver equipamentos médicos de imagem, Dalsa, lançou em 2003 a Origin. Ela foi a primeira câmera digital 35mm 4K no mundo. A Origin era uma câmera monstruosa, mas foi uma prova para um pequeno, mas apaixonado grupo de técnicos e criativos do começo embrionário do cinema digital, do que era possível, o que estava vindo pela frente e que a, muito questionada, tomada do cinema pelo digital era não só possível, como inevitável.

O surgimento do operador/dono de equipamento

red one

Quando a RED Digital Cinema anunciou o lançamento de um sistema 35mm capaz de gravar 4k em RAW com o corpo custando US$17,500 eles foram alvo de acusações e descrédito por todos os lados.

Apesar disso eles começaram a receber muitas pré-encomendas, efetivamente vendendo apenas um número de série para cada pessoa que fizesse o depósito, esse foi o início do operador/proprietário.

A RED entregou todas as promessas e literalmente mudou quase tudo da noite para o dia em uma indústria toda. Todo profissional de imagens no cinema, de diretores de fotografia a técnicos e editores, artistas VFX e coloristas, sentiram o impacto cedo ou tarde.

Papéis e métodos que eram aplicados há quase um século precisaram ser adaptados, funções que não existiam foram criadas (como o técnico de imagens digitais) e essa adaptação continua.

O máximo de informação na imagem

Com o sensor do tamanho de um super 35mm e bocais para lentes PL, o cinema digital estava pronto para mudar o foco de adaptações para criar suas próprias prioridades. As prioridades de uma câmera 35mm para cinema não eram as mesmas de uma desenvolvida para transmissão.

Além de ser projetada para acomodar lentes fixas e zoom de cinema, matte boxes e unidades de follow focus, assim como todos os outros acessórios utilizados no cinema, houve uma grande mudança nos formatos de compressão de vídeos que funcionavam muito bem para transmissão e a gravação em formatos sem compressão e com informação RAW.

As câmeras de transmissão precisavam acomodar fitas e gravadores parrudos que conversavam com a estrutura de broadcast e codecs, priorizando o tempo de ingest do material, edição e entrega em prazos curtíssimos normais no jornalismo. Já o cinema precisava de uma imagem sem nenhum comprometimento, como uma largura de banda que igualasse ou batesse os scans de películas.

As primeiras câmeras de cinema digital 35mm visavam manter o maior número de informação na imagem. A primeira Dalsa Origin tinha de ser conectada a disco rígidos RAID, dificilmente adaptáveis para o uso portátil.

A habilidade de capturar imagens RAW do sensor sem compressão veio junto com a ideia da aquisição de um sensor de 35mm. Até hoje, as câmeras de cinema de alto nível priorizam quantidade de informação na imagem em integração com um sistema mais ou menos tradicional de trabalho no set e o estilo de trabalho.

Contudo, algumas experimentações híbridas ocorreram e expandiram ainda mais as alternativas de Hollywood com relação à película.

As VDSLR 

Tenho certeza que muitos se lembram de quando assistiram pela primeira vez o vídeo revolucionário de Vincent Laforet gravado com um visual cinematográfico usando uma Canon 5D.

Ele foi visualizado mais de dois milhões de vezes na sua primeira semana. O cruzamento inesperado do cinema digital com a fotografia digital gerou um resultado no mínimo explosivo.

Este foi o começo do movimento VDSLR, possivelmente uma revolução pelos seus próprios méritos, assim como também o cinema digital, pois todos nós nos beneficiamos dela nos anos subsequentes, mesmo aqueles que nunca gravaram com uma DSLR.

Reverie – Vincent Laforet

A Canon alcançou algo fundamentalmente importante para o alto mercado de operadores/proprietários que temos hoje, ela trouxe consigo o Full HD, sensor de 35mm com lentes intercambiáveis e pouca profundidade de campo para o público em geral. Obrigado, Canon!

Infelizmente após fazer uma contribuição massiva e possivelmente acidental, muitos sentem que a Canon está à deriva, como se tivesse se perdido dentro do mundo que ela mesma ajudou a criar. O que a RED Cinema tinha possibilitado a todos aqueles que poderiam gastar US$25,000 ou mais, a Canon fez pelo restante das pessoas que não tinham esse dinheiro.

O resultado pode ser visto todo ano em shows como NAB e IBC. Não há muito tempo se você quisesse um matte box ou follow focus, você teria de apelar para um Arri FF-4 ou um MB2o.

Ninguém era dono de um matte box ou follow focus, eram itens sempre alugados, mas graças à Canon e a RED, hoje nós podemos comprar tudo isso e ainda mais, escolher entre opções e preços que podemos pagar.

Categorias inteiras de acessórios existem hoje graças a Canon 5D Mark II, ninguém considerava a necessidade de um cage de câmera, um follow focus barato, anéis de rotação para lentes fotográficas ou toda uma ala de novos estabilizadores, até o lançamento das DSLR’s Full Frame.

A Camcorder Super 35mm/Run & Gun

O outro surgimento híbrido resultante do cinema digital foi a combinação da imagem com adaptações ergonômicas e compressão de vídeo do mundo do broadcast. Este é o tipo de câmera que mostra claramente que as empresas estão buscando um novo mercado entre os operadores/proprietários.

A Canon, Sony, Panasonic e JVC (com algumas exceções, especialmente da Sony) demoraram a entrar no jogo das câmeras digitais de cinema como as desenvolvidas pela Arri e RED e esperaram parar inserir um sensor CMOS 35mm em câmeras que eles já conheciam, e que estavam inseridas em um mercado que conheciam melhor, onde sabiam que poderiam se expandir rapidamente.

A Sony especialmente tem tentado com sucesso o que eu defino (Richard Lackey) como uma gama de câmeras que se intercalam, mas o resultado das preferências de mercado é claro.

Não temos visto tantas Sony’s e Canon’s em set de filmes em Hollywood como costumamos ver a Arri e a RED. Mesmo a Sony F65 com seu “true 4K”, filtro de cores exótico e fluxo de trabalho em RGB 4:4:4 não conseguiu ter o impacto esperado em sets de gravação.

Contudo, temos visto muitas câmeras da Sony e Canon em documentários, vídeos corporativos e produções televisivas, assim como em muitos filmes independentes.

Codecs de compressão

Enquanto uma câmera puramente de cinema prioriza a qualidade de imagem, gravando em RAW ou no máximo em uma largura de banda muito alta, profundidade de bits muito alta, apenas codecs interframe, isso não é uma necessidade ou prioridade para muitos donos/operadores.

Na verdade, o número de situações onde gravar com um codec robusto que entregue boa qualidade de imagem juntamente com arquivos mais fáceis de gerenciar tem quase sempre  predominado em cenários no mundo real onde lidar com terabytes de informação em RAW é realmente necessário.

Ergonomia e Pouco Peso 

A tradicional câmera de broadcast é pensada para ser usada com o apoio do ombro de maneira fácil e, apesar de historicamente o peso total de câmera com gravador, bateria e lente não ser tão pequeno assim, hoje esperamos que uma câmera com esse propósito seja mais leve e fácil de usar e operar, seja no ombro ou nas mãos.

Essas considerações não foram totalmente ignoradas pelas fabricantes puramente de cinema com a Arri se preocupando em alguns destes aspectos especialmente durante o desenvolvimento da sua Alexa e Amirra.

Filtros Nativos

O clamor por filtros ND nativos pode ser ouvido de longe sempre que uma empresa produtora lança uma câmera com ótimo acabamento, mas sem nenhum pensamento quanto àqueles que querem a possibilidade de um filtro sem ter de colocar um matte box ou trilhos de filtros de cinema o tempo todo.

É uma decisão, no entanto, que vai de encontro ao propósito da câmera. A Blackmagic Design nunca inseriu filtros ND nativos em suas câmeras e, com a clara prioridade na qualidade de gravação, CinemaDNG RAW e AppleProRes, podemos deduzir que ela esteja buscando usuários que queiram uma imagem cinematográfica.

Isso é simplesmente algo para se ter em mente quando comprar uma câmera, comparar o possível uso com necessidades individuais.

Autossuficiente

Não é difícil ver um amontoado de malas e cases grandes e pesados durante uma gravação de cinema. O corpo da câmera é apenas uma parte de um multicomponente que se a torna a câmera.

Claro, isso não se aplica para muitos outros cenários fora do cinema e o arquétipo de Super 35mm “camcorder” é construído para ser bem mais autossuficiente e operador por uma única pessoa.

O Universo em Expansão da Cinematografia Digital

Esse é apenas um resumo dos primeiros capítulos do “big bang” da cinematografia digital que ocorreu na última década. Você está lendo este post neste site por causa da cadeia de eventos que acabou de ler.

Todos os websites, grupos e páginas em mídias sociais, mesmo os vários setups de câmera de experts e personalidades que conhecemos e seguimos existem, pois essa tecnologia existe e foi capaz de criar um mercado mainstream para cineastas de todos os níveis, profissionais ou entusiastas.

Você tem muito mais opções em equipamento e acessórios, dentro de uma gama muito maior de preços e especificações que poderíamos imaginar dez anos atrás. O mercado em expansão das câmeras digitais do qual você faz parte agora sequer existia antes.

Não há nenhuma câmera que cubra todas as necessidades, elas todas evoluíram em forma e características para absorver seu próprio nicho, mas atualmente você pode encontrar mais que apenas uma opção que irá entregar o que você precisa, seja lá o que for.

Richard Lackey via Cinema5d

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Graduado em Imagem e Som pela UFSCar e especialista em Gestão Estratégica de Negócios pela Mackenzie. Parte de seu portfólio está disponível em: https://www.behance.net/gustafonseca. Quer entrar em contato? Envie um e-mail para gustavof.gustavo@gmail.com.

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